Eu estava andando, quase virando a esquina. A chuva começava a ser percebida em pinguinhos leves e bobos. Nas costas uma mochila enorme, preta e vermelha e pesada. Na mão direita uma sacola grande com um edredom dobrado dentro. Debaixo do braço esquerdo dois travesseiros grandes, sem fronha, sujos do tipo que eu deveria ter vergonha de andar com eles na rua. Na mão esquerda, embaixo dos travesseiros, um guarda-chuva fechado. Mera ilusão, pois se chuva piorasse seria impossível abri-lo com todas aquelas coisas nas mãos.
De repente eu ouço.
- Ê... Esse chove, não chove...
Olhei para trás.
Lá estava ela: Gorda e grande e espaçosa.
Não reparei mais, olhei pra frente.
Não havia ninguém mais na rua.
Um sábado a tarde chovendo.
Será que ela havia falado comigo?
Senti um certo medo e incômodo. Apertei o passo. E ela insistiu na história da chuva.
- Essa chuvinha chata... Será que chove mais?
Por que alguém falaria com um estranho na rua? Por que alguém dirigiria a palavra a mim? Será que eram os travesseiros? Eu devia estar mesmo chamando muita atenção. Mas isso é motivo? Eu não falaria com pessoas que chamassem a atenção sem nenhuma outra razão plausível. Não seria correto dentro das normas da etiqueta da vida em sociedade falar com um estranho na rua só por que ele chama a atenção. Olhei para o chão. Continuei a andar. E ela, alguns passos atrás de mim, apenas trouxe um ônibus à tona.
- Ai! Quatro horas da tarde já... Nem tem mais ninguém na rua... E nessa hora nem deve ter mais ônibus... Tem que pegar lá na frente...
Será que ela estava muito desesperada para falar com alguém? Será que ela era uma dessas pessoas que não consegue ficar quieta nem quando está sozinha na rua e tem que se desatar a falar com estranhos? E se eu não estivesse lá? Ela falaria com um poste? A chuva engrossou um pouco e ela não deixou por menos:
- Iiii... Vai molhar os travesseiros...
Agora já não dava mais para fingir que não era comigo. Ela fez um comentário direto. Foram os travesseiros. Só podia ser! Nunca mais devo sair com travesseiros na rua. O desgaste emocional pode ser irreparável. Eu não sabia o que fazer. Olhei para trás e reparei melhor: Uma saia cinza até pouco abaixo do joelho, um par de botas marrons e altas. Uma blusa qualquer de mangas compridas e um ridículo colete/jaleco preto, comprido e sem mangas. Uma combinação horrível. Eu estava começando a odiar aquela mulher gorda. Balancei a cabeça concordando. E ela não deixou por menos. Ela simplesmente não podia ficar quieta.
- Hum... Vou comer uma pamonhinha ali... A pamonha deles é melhor que a dali de cima. Você já comeu? A pamonha ali?
Foi o fim! O que era aquilo? Quem era aquela mulher? Uma agente secreta do governo pronta a prender qualquer um que gostasse de pamonha? Por que ela queria saber alguma coisa da minha vida? Não podia ficar só com os comentários sobre o tempo? Por que comigo? Por que pamonhas?
- Não.
Curta e grossa e sem sorrisos. Talvez assim ela parasse... Fosse embora... Me deixasse em paz de volta com meus travesseiros. O mais neutra e desinteressante possível. Parecer desinteressante é uma necessidade nesse mundo estranho de mulheres gordas.
- Você é daqui?
Pronto! Era o que faltava! Ela estava querendo saber coisas pessoais sobre mim. Ela queria sugar toda a informação possível sobre a garota dos travesseiros que coubesse em sua mente pobre e chata. O que ela faria depois? Contaria para sua vizinha quando chegasse em casa que havia conversado com uma menina na rua, que levava travesseiros, e não gostava de pamonhas e era de sei lá onde? O que ela queria de mim? Eu estava exausta. Eu já sentia raiva daquela mulher.
- Não.
- Ah! É por isso!
É por isso o que? Que milhares de conclusões incríveis ela retirou do meu "não"? Já havíamos andado um quarteirão e atravessado a rua.
- É que eu não almocei ainda e queria comer alguma coisa diferente...
E por que isso me interessaria, mulher gorda? Deve haver algo errado comigo. Algum ar invisível que me circunde e chame a atenção destes monstros à margem da sociedade. O assunto mudou de novo. Menos pessoal e eu fiquei um pouco aliviada por isso. Mas ainda me perguntava por quantos quarteirões mais ela iria me seguir.
- Nossa quanto cocô de pombo.
- É.
- Fica tudo sujo. Ouvi dizer que estão matando os pobrezinhos.
E mais essa agora! Eu devia ter previsto... É típico das mulheres gordas comedoras de pamonha gostarem de pombos. Eu queria muito humilhá-la. Acabar com ela naquela hora. Gritar na cara dela que todos os pombos do mundo deveriam morrer! Pegar um pombo nas minhas mãos e arrancar a cabeça dele nos dentes para vê-la chorar e suplicar pela vida do bichinho inútil. Deve ser isso. Ela certamente se identificava com eles. Sujos inúteis gordos párias da sociedade. Respirei fundo.
- É que tem muito, né.
E ela silabou qualquer coisa sobre "estão matando eles". Mais alguns passos em silêncio e o meu pavor só aumentava. Qual seria o próximo assunto indecente? Qual seria a próxima abordagem suja e sem escrúpulos? Onde estaria essa bendita casa de pamonha para tirá-la de perto de mim? Mais três passos e ela foi se aproximando da beirada da calçada. Que saltasse na frente do próximo ônibus, por favor. Mas não.
- Tchau!
E ela ainda teve coragem de dizer tchau! Como se me conhecesse. Como se fôssemos íntimas e as revelações sobre seu almoço diferente tivessem feito toda a diferença na minha vida.
Respirei aliviada pois tudo aquilo tinha acabado. Mas ainda me sentia invadida. Atormentada por uma mulher gorda. Espero que tenha engasgado com a pamonha e aprendido e ficar quieta.
Preciso trabalhar na terapia porque uma abordagem de um estranho na rua me faz sentir tanta raiva? Sim. Preciso.
Jamais machucaria um pombo.
Eles não devem ser mortos.
Pessoas não devem ser diminuídas ou julgadas, de maneira nenhuma, por sua forma física ou por abordarem estranhos na rua. Ou por comerem pamonhas.
Mas não falem comigo.
Por favor.
Abril/2007